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Qual seria uma lua boa para pesca?

Conheça a importância da Lua para as pescarias e descubra em qual fase é mais fácil fisgar o troféu desejado

Por Waldyr Andrade

Quase todos os pescadores já viram em algum lugar uma tabela lunar prevendo a Lua boa para pesca. De acordo com essas tabelas, algumas com precisão de horas, o afortunado pescador já poderia saber antecipadamente se os peixes estarão mordendo, ou não, as iscas no dia de sua jornada.

Mas, quase sempre, não há nessas tabelas lunares uma base de dados ou algum outro estudo que justifique o porquê vai ser ou bom. Ou vai ser ruim. Ou até mesmo razoável.

Bom; o fato é que inicialmente algumas coisas podem ser ditas sobre a influência da Lua na Terra. A Lua é nosso único satélite natural, distante em média 380 mil quilômetros da superfície terrestre. Ela realiza um giro completo em volta da Terra a cada 29 dias aproximadamente, e sua posição diária em relação ao Sol a à Terra causa efeitos importantes. São eles: a aparência da Lua pela iluminação solar. O horário que ela nasce e se põe no horizonte. E o leve movimento de atração sobre as águas dos oceanos, as chamadas marés.

A aparência da Lua, em função do ângulo em que ela recebe a luz solar, fez com que houvesse a divisão em quatro fases lunares, caracterizadas por quatro dias específicos deste período.

A influência da Lua afeta diretamente o desempenho de uma saída para pesca oceânica

“As Luas”

O dia da Lua Cheia, na qual fica completamente iluminada durante a noite, sendo que nesse dia ela nasce às 6 da tarde e se põe no horizonte às 6 da manhã. Seguido pelo dia da Lua Minguante, quando estará metade iluminada, nascendo à meia- noite e se pondo ao meio- dia do dia seguinte. E depois pelo dia da Lua Nova, invisível à noite, pois nasce às seis da manhã e se põe às seis da tarde. E depois pelo dia de Lua Crescente, em que a Lua estará também parcialmente iluminada, nascendo ao meio- dia e se pondo à meia -noite.

Entre cada fase decorrem por volta de sete dias e meio, perfazendo um ciclo total de, aproximadamente, 29 dias. É curioso notar que, na verdade, a aparência da Lua se modifica diariamente. Então poderiam ser 29 fases lunares diferentes, uma por dia, e não só as quatro convencionais.
Marés e efeitos

Juntamente com a transformação diária de sua face iluminada ocorre também, diariamente, a modificação do campo gravitacional que a Lua exerce sobre a Terra, juntamente com o Sol. Essa força gravitacional ocasiona atração e movimento da camada superficial dos oceanos, causando as marés. As marés, segundo os cientistas, são as únicas manifestações físicas causadas pela Lua na Terra.

As influências

A possível influência das fases lunares sobre o comportamento dos peixes parece então depender de dois fatores principais, e talvez únicos: a iluminação lunar noturna, em função da aparência da Lua. E, no caso dos peixes oceânicos e estuarinos, também a movimentação das águas em função das marés.

Muito se especula sobre se a alimentação noturna dos peixes predadores estaria facilitada pela iluminação da Lua. E se esse fato causaria uma maior ou menor atividade deles durante o dia. Há quem defenda, com o mesmo entusiasmo, ambas as posições.

Uma outra possibilidade para confirmar essa mudança de hábitos dos peixes seria a reação em cadeia, envolvendo toda a pirâmide alimentar. Sabe-se que a iluminação lunar noturna afeta efetivamente o comportamento de pequenos peixes. Um exemplo são os cardumes de xixarrs (Trachurus latami), peixe forrageiro importante nos mares do Brasil que simplesmente desaparecem da superfície nas noites bem iluminadas pela Lua.

Isso sem dúvida pode alterar de alguma forma o comportamento de todos os peixes envolvidos na cadeia alimentar a que ele pertence, sejam suas presas, sejam seus predadores.

Por outro lado, a movimentação das marés é fator crucial no comportamento dos peixes estuarinos, por afetar todo um sistema de vida baseado nestes ecossistemas. Os peixes parecem criar padrões de comportamento em função do movimento da maré.

O comportamento de alimentação do robalo é um exemplo bem conhecido pelos pescadores, sendo que existem também variações desses padrões por motivo da região de pesca.

Saber se os hábitos alimentares dos peixes fica alterado quando a Lua “muda” é fundamental

Como analisar?

O comportamento dos peixes oceânicos influenciado pela fase lunar tem sido alvo de inúmeras preocupações, por vários motivos. Limitando-se a analisar esse assunto do ponto de vista da pesca esportiva, uma das questões é o relativo alto custo de uma pescaria oceânica, o que sempre fará o pescador desejar sair para pescar numa “lua propícia” para a pesca de determinado peixe.

Com base nessa preocupação, inúmeras vezes me deparei no cotidiano na Bahia SportFishing, empresa turística de pesca oceânica, com pescadores indagando sobre esse assunto na marcação de suas pescarias. “Qual seria uma “lua boa” para pescar marlin?” “Nessa data que marcamos a lua é “boa”?” E muitas outras questões parecidas sempre aparecem.
Daí surgiu numa conversa com o Tuba, a idéia de fazer um “log-book” de todos os peixes que foram fisgados nas lanchas WAHOO (do capitão Tuba) e COYOTE (capitão Cuca).

Para afastar possíveis distorções de dados e simplificar o processo, não foram consideradas avaliações por causa de pescarias excepcionais, e nem pescarias “boas” ou “ruins”. Tais situações são aleatórias. O que se procurou definir foi a presença de espécies de peixes durante as fases lunares. Resumimos as fases em três dias antes, o dia exato e três dias depois de cada Lua.

É importante lembrar que as conclusões estão sempre em movimento, já que o mais sensato é trabalhar sempre com fatos e não com idéias pré-estabelecidas ou dogmas. À medida os fatos vão acontecendo, e na medida em que vão mudando, temos que adaptar nosso modo de pensar, nossas conclusões, sob pena de perdermos a consistência e utilidade.

Quem sabe quais serão as conclusões com base nos dados de pescarias daqui a cinco ou dez anos? Bom, o certo é que após quase 500 pescarias realizadas nas lanchas começamos a ter uma idéia do padrão de comportamento dos peixes por influência das fases da Lua.

É fundamental avaliar idéias e conceitos sobre uma base de dados confirmados. É que mais importante do que a especulação ou a justificativa, que são meras teorias, será a própria base de dados, que representa fatos incontestáveis.

Muito interessante que as conclusões algumas vezes são diferentes e até opostas àquelas similares sobre os mesmos peixes no Caribe e em outras partes do mundo. Isto leva à certeza de que o comportamento dos peixes varia em razão do local em que vivem.

Lembramos que as conclusões se referem aos peixes do litoral adjacente a Canavieiras (BA).

A Lua boa…

1) Atuns
Nova = 73,6 Cresc=77,2 Cheia=70,1 Ming =48,8

A tabela nos diz que os atuns apareceram em 73,6% das pescarias na Lua Nova, em 77,2% na Lua Crescente, em 70,1% das pescarias na Lua Cheia, e em 48,8% das pescarias na Lua Minguante. A análise estatística desses dados revela que não se pode diferenciar as fases Nova, Crescente e Cheia, pois são bem similares e propícias para a pescaria de atuns. A atividade desses peixes reduz-se um pouco nas Luas Minguantes. Os grandes atuns yellow fin foram os mais presentes nas pescarias na Lua Minguante.

Os atuns parecem dispostos a atacar as iscas independente da fase lunar

2) Badejos
Nova = 5,7 Cresc = 9,8 Cheia = 14,3 Ming = 9,5

Os badejos não são tão frequentes nas pescarias como os atuns, e pela análise deduz-se que são de um modo geral igualmente distribuídos pelas fases da Lua, à exceção de uma aparente presença mais forte nas Luas Cheias, talvez associada à arribadas ou migrações. A base de dados de badejos não é tão expressiva quanto a de atuns para se permitir conclusões mais precisas.

3) Barracudas
Nova = 13,8 Cresc = 17,4 Cheia= 11,7 Ming= 6,0

As temíveis barracudas são ativas de maneira equilibrada pelas fases lunares, recolhendo-se um pouco na Lua Minguante.

4) Cavala- Verdadeira
Nova = 39,1 Cresc = 46,7 Cheia = 40,3 Ming = 34,5

As cavalas- verdadeiras não parecem dar muita importância à fase lunar, distribuindo-se de forma quase equilibrada durante o mês. Uma pequena redução de atividade na Lua Minguante pode ser notada.

5) Dourado- de- Mar
Nova = 48,3 Cresc = 23,9 Cheia = 36,4 Ming = 35,7

Aceitando como válida a tese de que a alimentação noturna facilitada pela iluminação da Lua reduz a voracidade do dourado durante o dia, podemos concluir que isso leva à maior presença desse peixe durante as pescarias de Lua Nova. Mas o dourado pode ser pego normalmente em todas as fases lunares.

6) Marlin – Azul
Nova = 51,4 Cresc = 56,5 Cheia = 62,1 Ming = 75,9

Uma provável ligação pode ser feita entre a maior atividade dos marlins- azuis na Lua Minguante e a redução da presença de atuns no mesmo período, já que esses são o seu principal alimento. Uma possibilidade é que, na falta dos atuns, os marlins ataquem mais as iscas apresentadas.

Outra é que os atuns (e outros peixes) estejam mais escondidos ou acuados em função da voracidade maior dos marlins- azuis — o maior predador local — na Lua Minguante.

Outro grande predador local, o atum yellow-fin, também gosta de aparecer perto das Luas Minguantes. Mas o marlin aparece sistematicamente em todas as fases lunares.

7) Olho- de- boi
Nova = 75,9 Cresc = 70,7 Cheia = 70,1 Ming = 65,5

Igualmente distribuído entre as fases lunares, o olho- de- boi não parece se importar muito com a fase da Lua. Como é um peixe que vive boa parte do tempo caçando no fundo do mar, não deve mesmo se preocupar muito com a iluminação noturna da lua.

O olho-de-boi está sempre no fundo. Por isso, pouco importa a influência da luminosidade da Lua

8) Cavala Wahoo
Nova = 32,2 Cresc = 22,8 Cheia = 23,4 Ming = 20,2

As valentes cavalas wahoo parecem gostar mais das Luas Novas. Na mesma linha de raciocínio do dourado- de- mar, a escuridão noturna da Lua Nova deve fazer este peixe fantástico dedicar-se mais durante esse período à caça diurna. Nas demais fases da Lua a presença da wahoo é um pouco menor e constante.

9) Xaréus
Nova = 25,3 Cresc = 48,9 Cheia = 49,4 Ming = 40,5

O comportamento dos xaréus é inverso, reduzem sua atividade diurna na Lua Nova, sendo bem constante sua presença nas demais luas. Que poderia justificar isso? Uma habilidade inata de caçar à noite, sem luz, o que levaria o peixe a descansar durante o dia?

Conclusão

Os fatos estatísticos apresentados destinam-se a que seja feita uma livre interpretação por parte dos leitores, levando em conta sua própria experiência e observações. Na minha opinião, não há por aqui uma diferença notável entre as pescarias oceânicas quando realizadas em uma ou em outra fase da Lua.

Chama talvez um pouco a nossa atenção a constatação da maior atividade dos marlins na Lua Minguante, junto com a redução da atividade dos atuns.

Na internet, em sites e fóruns de pesca nacionais e internacionais, este assunto é muito debatido, com conclusões para todos os lados, dependendo da região de pesca, o que revela a preocupação e interesse dos pescadores sobre a Lua e os peixes!