
Uma pescaria pode começar muito antes do primeiro arremesso. Escolher o destino, definir a espécie, consultar vento e previsão do tempo, avaliar pressão atmosférica, procurar pontos no mapa, separar equipamentos e encontrar pousada ou guia normalmente exige que o pescador passe por diferentes sites, aplicativos e fontes de informação. Uma plataforma brasileira quer colocar boa parte dessa jornada em um único ambiente.
Em primeira mão à Pesca & Companhia, os idealizadores do PESKAR apresentam a proposta de um aplicativo que utiliza inteligência artificial, mapas e informações ambientais para auxiliar o pescador no planejamento da atividade. Disponível para iOS e Android, o projeto foi criado por Leonardo Paiva, Thiago Silva e Souza e Edjohnson Stolaric e chega ao mercado depois de aproximadamente um ano entre concepção, desenvolvimento, pesquisas e testes.
O tamanho do público ajuda a dimensionar o mercado que a nova plataforma pretende alcançar. O Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA) estima que aproximadamente 8 milhões de pessoas pratiquem pesca amadora ou esportiva no Brasil. O número é muito superior ao contingente formalmente registrado: em 2024, foram emitidas cerca de 323 mil licenças de pesca amadora e esportiva. Entre elas, apenas 9% foram destinadas a mulheres. Os dados fazem parte do diagnóstico utilizado pelo governo federal para estruturar o Plano Nacional para o Desenvolvimento Sustentável da Pesca Amadora e Esportiva.
É nesse universo, formado não apenas por pescadores, mas por fabricantes de equipamentos, lojas, embarcações, guias, pousadas, pesqueiros, operadores turísticos e destinos, que o PESKAR pretende entrar.
Uma necessidade percebida durante uma pescaria
A ideia nasceu em setembro de 2025, durante uma viagem de pesca de Leonardo Paiva. Na preparação e já no destino, ele percebeu que precisava alternar entre diferentes ferramentas para encontrar as informações necessárias para tomar decisões.
“Durante a viagem eu percebi que estava recorrendo a vários lugares diferentes para conseguir montar a pescaria. Uma ferramenta para clima, outra para mapa, outras fontes para pesquisar espécie, equipamento e estratégia. Quando voltei, levei essa questão para o Thiago e o Edjohnson. O PESKAR começou justamente com a ideia de simplificar esse processo e colocar informações importantes para o pescador em um mesmo ambiente”, explica Leonardo Paiva.
A proposta inicial era concentrar o planejamento. Durante o desenvolvimento, porém, os três perceberam que poderiam avançar para outras etapas da experiência.
“Quando começamos a conversar com pescadores e profissionais do mercado, entendemos que a necessidade não acabava no planejamento. Existe toda uma jornada antes, durante e depois da pescaria. Foi aí que o projeto começou a crescer. A nossa visão passou a ser construir uma plataforma que pudesse acompanhar essa jornada”, afirma Thiago Silva e Souza.
IA cruza espécie, local, data e condições ambientais
Um dos principais recursos do PESKAR está justamente nessa primeira etapa.
O usuário pode informar espécie, local e data da pescaria. A plataforma utiliza essas informações em conjunto com variáveis ambientais para gerar orientações destinadas àquela situação.
Entre os dados considerados estão vento, pressão atmosférica, temperatura, previsão climática e horários. A inteligência artificial entra no processo para transformar esse conjunto de informações em orientações práticas, incluindo estratégias e indicações relacionadas a iscas e equipamentos.
A proposta não é afirmar que um algoritmo consegue prever onde o peixe estará ou garantir uma captura. Pesca continua envolvendo comportamento animal, características do ambiente, técnica e uma série de variáveis que podem mudar ao longo do dia.
O objetivo é entregar ao pescador mais informação organizada antes da tomada de decisão.
“A tecnologia não vai pescar pelo usuário. O que queremos é ajudá-lo a chegar mais preparado. Existem muitos dados disponíveis hoje, mas nem sempre eles estão organizados de uma maneira útil para quem está planejando uma pescaria. O desafio do PESKAR é justamente transformar informação em algo que possa ser usado na prática”, diz Edjohnson Stolaric.

Um setor que vai muito além da compra de equipamentos
A dimensão da pesca esportiva também aparece na movimentação de eventos e negócios ligados à atividade.
Em março de 2026, os três idealizadores do PESKAR estiveram no Pesca & Companhia Trade Show, realizado no Distrito Anhembi, em São Paulo. A edição comemorativa de 20 anos reuniu cerca de 110 expositores e entre 20 mil e 23 mil visitantes em três dias. Antes da abertura, a organização projetava aproximadamente R$ 500 milhões em negócios relacionados ao evento.
A feira reuniu empresas e profissionais ligados não apenas a varas, carretilhas, molinetes e iscas. Náutica, motores, eletrônicos, turismo de pesca, destinos, pousadas e outros segmentos da cadeia estiveram representados.
Para os criadores do PESKAR, a passagem pelo Trade Show permitiu observar presencialmente justamente o ecossistema que pretendem conectar digitalmente.
“O Trade Show foi importante porque colocou diante de nós, no mesmo lugar, boa parte do mercado que estamos olhando no desenvolvimento do PESKAR. Você encontra marcas, produtos, destinos e pessoas que vivem a pesca diariamente. Saímos do evento ainda mais convencidos de que existe espaço para conectar melhor esses diferentes atores também no ambiente digital”, afirma Leonardo Paiva.
O próprio governo federal passou a tratar a pesca amadora e esportiva como atividade relacionada a turismo, desenvolvimento econômico e conservação. Em 2026, foi aprovado o Plano Nacional para o Desenvolvimento Sustentável da Pesca Amadora e Esportiva, com horizonte até 2034.
O mapa particular de cada pescador
Outra frente do aplicativo está nos mapas.
O pescador possui um ambiente próprio, com imagens de satélite, no qual pode registrar, identificar e organizar seus pontos.
A proposta é que o recurso deixe de funcionar apenas como mapa e passe a formar, ao longo do tempo, uma espécie de memória digital das pescarias do usuário.
Aquele ponto encontrado em uma viagem, uma estrutura que produziu capturas ou uma região que merece ser visitada novamente podem permanecer registrados para consultas futuras.
“Quem pesca acumula muita informação. São pontos, experiências e situações que muitas vezes ficam apenas na memória, em uma fotografia ou em uma marcação perdida em outro aplicativo. Queremos que o pescador consiga construir o histórico dele dentro da plataforma e que essa base fique mais rica conforme ele utiliza o PESKAR”, explica Thiago Silva e Souza.
Do pescador à pousada, do guia à loja
É nesse ponto que o projeto tenta dar um passo além de um aplicativo de previsão ou mapas.
A estratégia do PESKAR é conectar também empresas e profissionais que fazem parte da cadeia da pesca.
A lista inclui pousadas, guias, pesqueiros, lojas, náuticas, locações, destinos, fabricantes e marcas.
Na prática, a ambição é que o usuário possa iniciar sua jornada pesquisando uma pescaria e encontrar, dentro do mesmo ecossistema, parte dos serviços necessários para realizá-la.
Um pescador interessado em determinada espécie, por exemplo, poderia pesquisar onde e quando encontrá-la, analisar condições ambientais, preparar equipamentos e estratégia e, ao mesmo tempo, localizar empresas e profissionais ligados àquele destino.
“Não queremos construir somente um aplicativo com algumas ferramentas para pescar. A visão é criar um ambiente em que o pescador consiga se conectar com quem faz a pesca acontecer. Existe uma cadeia muito grande por trás de uma viagem: guia, pousada, loja, náutica, fabricante, destino. Se conseguirmos aproximar esses dois lados, o PESKAR passa a fazer parte de uma parcela muito maior da jornada”, afirma Edjohnson Stolaric.

Tecnologia também chega à captura
Os planos de expansão incluem recursos que aproximam a captura realizada na água do ambiente digital.
Um deles é a chamada Régua PESKAR, ainda em desenvolvimento.
A ferramenta foi pensada para utilizar a câmera do aplicativo na identificação e medição dos peixes. Em uma etapa futura, a tecnologia poderá ser utilizada também como instrumento de validação em desafios e torneios.
O projeto prevê ainda experiências relacionadas a capturas, compartilhamento de pontos, expedições e competições.
O ambiente competitivo, aliás, é outra dimensão da pesca esportiva brasileira. Segundo o governo federal, foram realizadas mais de 117 competições registradas em 2024. Competições oficiais de pesca amadora precisam de autorização prévia e seus participantes devem estar devidamente licenciados.
É importante separar, entretanto, aquilo que já está disponível do que integra o plano de evolução do aplicativo. A Régua PESKAR e parte dessas experiências representam funcionalidades em desenvolvimento.
O desafio de digitalizar um universo de milhões de pescadores
Os números ajudam a dimensionar tanto a oportunidade quanto o desafio.
De um lado está uma estimativa oficial de cerca de 8 milhões de praticantes. Do outro, um universo de fabricantes, comércio, turismo, serviços, competições e destinos que ainda utiliza diferentes canais para chegar ao pescador.
O contraste entre os cerca de 8 milhões de praticantes estimados e as 323 mil licenças emitidas em 2024 também evidencia uma dificuldade anterior à própria tecnologia: nem mesmo dimensionar com precisão o tamanho da pesca amadora brasileira é uma tarefa simples.
É nesse mercado fragmentado que o PESKAR pretende encontrar espaço.
“O pescador já usa tecnologia. Ele consulta previsão, abre mapas, pesquisa equipamentos, conversa com guias, procura pousadas e compartilha suas capturas. O que percebemos é que essas atividades acontecem de maneira muito fragmentada. Nosso trabalho é tentar organizar essas conexões sem tirar aquilo que é a essência da pesca”, diz Leonardo Paiva.
Cerca de um ano depois da primeira conversa entre os três idealizadores, o PESKAR já está disponível para iOS e Android e entra agora em uma nova etapa: transformar uma ideia surgida durante uma viagem em uma plataforma utilizada pela comunidade que ajudou a inspirá-la.
“Estamos colocando a primeira versão nas mãos dos pescadores sabendo que o projeto não termina aqui. Pelo contrário. Queremos que a experiência de quem utiliza a plataforma ajude a definir os próximos passos. O objetivo é fazer o PESKAR evoluir junto com o pescador e com o mercado”, conclui Edjohnson Stolaric.
PESKAR
Idealizadores: Leonardo Paiva, Thiago Silva e Souza e Edjohnson Stolaric
Disponibilidade: iOS e Android
Instagram: @peskar.app
Site: peskarapp.com.br
