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Você sabia? Vila de pescadores parou de pescar e viu quantidade de peixes crescer 463%

Você imaginaria uma vila formada por pescadores decidindo parar de pescar para tentar salvar os próprios peixes? Foi o que aconteceu em Cabo Pulmo, uma pequena comunidade na península da Baja California, no México. E os números registrados anos depois transformaram o local em um dos casos mais conhecidos de recuperação de um ecossistema marinho.

Em 6 de junho de 1995, Cabo Pulmo tornou-se oficialmente Parque Nacional. A área protegida possui 7.111 hectares e abriga o único sistema de recife de coral do Golfo da Califórnia, segundo a Comissão Nacional de Áreas Naturais Protegidas do México (Conanp).

A decisão não surgiu porque havia peixe em abundância. O cenário era justamente o contrário. Décadas de exploração haviam reduzido os estoques e famílias que tradicionalmente dependiam da pesca perceberam que precisavam permanecer cada vez mais tempo no mar para conseguir capturas menores.

Judith Castro, integrante de uma das famílias que participaram diretamente da transformação de Cabo Pulmo, descreveu essa realidade em depoimento publicado pela The Nature Conservancy:

“Each time you had to spend more time at sea and you would still return with fewer fish.”

Em tradução: “A cada vez era preciso passar mais tempo no mar e, ainda assim, voltar com menos peixes.” (The Nature Conservancy)

Foi então que a comunidade apostou em uma mudança radical: abandonar a pesca dentro da área e ajudar a proteger o recife.

De 0,75 para 4,24 toneladas de peixe por hectare

Os resultados demoraram anos para aparecer, mas foram enormes.

Um estudo científico publicado em 2011 na revista PLOS ONE comparou levantamentos realizados em Cabo Pulmo e em dezenas de recifes do Golfo da Califórnia.

Em 1999, quatro anos depois da criação do parque, a biomassa média de peixes em Cabo Pulmo era de aproximadamente 0,75 tonelada por hectare. Naquele momento, não havia diferença estatisticamente significativa em relação a outras áreas protegidas e locais onde a pesca continuava permitida.

Dez anos depois, tudo havia mudado. Em 2009, a biomassa chegou a 4,24 toneladas por hectare. O aumento foi de 3,49 toneladas por hectare — ou 463% em uma década.

E não foi apenas a quantidade de peixes que cresceu.

A biomassa dos grandes predadores aumentou cerca de 11 vezes, enquanto a dos peixes carnívoros cresceu aproximadamente quatro vezes. Os pesquisadores calcularam aumento de 1.070% na biomassa dos predadores de topo.

De 15 para 25 espécies

Outro indicador importante foi a diversidade.

Em 1999, os pesquisadores encontravam, em média, 15 espécies de peixes por transecto analisado. Dez anos depois, eram 25 espécies — crescimento de aproximadamente 67%.

Enquanto isso, ocorreu o movimento contrário em outras regiões pesquisadas.

Nas zonas de proteção integral de outras áreas marinhas do Golfo da Califórnia, a média caiu de 22 para 18 espécies. Nos locais de acesso aberto, passou de 20 para 17.

A diferença também apareceu no tamanho dos animais. Entre 88 espécies encontradas nos levantamentos, os maiores indivíduos de 25 delas estavam dentro de Cabo Pulmo em 2009.

A biomassa total registrada no parque naquele ano era 5,4 vezes maior que a encontrada, em média, nas demais zonas protegidas e áreas abertas analisadas pelos pesquisadores.

O estudo classificou o crescimento absoluto da biomassa registrado em Cabo Pulmo como o maior então medido em uma reserva marinha no mundo.

A proteção também virou negócio

A história poderia terminar com a recuperação dos peixes, mas aconteceu outra transformação: uma comunidade anteriormente dependente da retirada dos animais passou a encontrar renda no próprio ecossistema preservado.

Passeios, mergulho e outras atividades de ecoturismo ganharam espaço.

Segundo o estudo científico, operadores locais de turismo de pequena escala movimentaram aproximadamente US$ 538,8 mil em 2006. Naquele momento, menos de 30 pessoas, distribuídas por cinco pequenos negócios, estavam envolvidas diretamente nessas operações.

Isso não significa que simplesmente fechar qualquer área à pesca produzirá aumento de 463%. Os próprios pesquisadores apontam que Cabo Pulmo reuniu condições específicas, entre elas liderança comunitária, apoio dos moradores, fiscalização efetiva e características ecológicas favoráveis.

O envolvimento dos antigos pescadores foi considerado especialmente importante. A comunidade participou da vigilância, proteção da fauna e conservação da área.

Os pesquisadores resumiram:

“The success of CPNP is greatly due to local leadership, effective self-enforcement by local stakeholders, and the general support of the broader community.”

Ou seja, o sucesso foi atribuído em grande medida à liderança local, à fiscalização exercida pelos próprios envolvidos e ao apoio da comunidade.

Mais de três décadas depois da decisão tomada em 1995, Cabo Pulmo continua protegido. O local tornou-se também área de importância internacional e integra o conjunto de ilhas e áreas protegidas do Golfo da Califórnia reconhecido como Patrimônio Mundial.

Para quem vive da pesca ou simplesmente gosta de pescar, a história deixa uma provocação interessante: em Cabo Pulmo, para voltar a existir muito peixe, pescadores decidiram primeiro parar de pescá-lo.

Fontes

Estudo científico publicado na PLOS ONE — Large Recovery of Fish Biomass in a No-Take Marine Reserve

CONANP — Parque Nacional Cabo Pulmo

Smithsonian Ocean — Cabo Pulmo Protected Area

The Nature Conservancy — depoimento de Judith Castro e dados de Cabo Pulmo

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