Da construção civil em Goiânia à vida na Amazônia, uma trajetória que começou com uma viagem entre amigas e se transformou em uma paixão pela pesca esportiva

Curiosamente, não foi um peixe que me fez apaixonar pela pesca esportiva.
Na verdade, foi algo que eu nem sabia o quanto precisava naquele momento: a oportunidade de me desconectar do mundo e simplesmente viver o presente.
Naquela época, eu morava em Goiânia e trabalhava na construção civil. Minha rotina profissional era intensa, com muitas responsabilidades e o estresse característico de quem vive envolvido em negócios, compromissos e decisões.
Foi quando surgiu a oportunidade de participar de uma pescaria exclusivamente feminina, entre amigas. Uma experiência completamente nova para mim, sem grandes expectativas sobre o que encontraria.
Naqueles dias, ainda não existia a facilidade de comunicação que temos hoje nas regiões mais remotas. Sem internet, sem sinal de celular e longe das demandas do trabalho, experimentei algo que havia muito tempo não sentia: paz.
Pela primeira vez em muitos anos, consegui me desligar completamente da minha vida profissional.
Passei a prestar atenção em coisas que, até então, nunca havia observado daquela maneira. As paisagens do rio, os sons da natureza, os animais, as histórias contadas pelos guias e a riqueza de conhecimento que existia dentro daquele barco.
Mesmo sendo goiana, criada no interior, percebi que nunca havia realmente parado para viver uma experiência tão próxima da natureza.
Lembro da curiosidade em conhecer espécies de peixes que eu já estava acostumada a consumir, mas que nunca havia tido a oportunidade de observar vivas, em seu ambiente natural.
Cada conversa com os guias trazia uma descoberta. Cada dia no rio despertava uma nova curiosidade.
E foi assim, quase sem perceber, que comecei a me apaixonar por aquele universo.

Com o tempo, veio também a emoção da captura, o aprendizado das técnicas, a expectativa de cada arremesso e uma das experiências que mais me encantaram na pesca esportiva: a possibilidade de capturar um peixe, admirá-lo e devolvê-lo vivo à natureza.
O que começou como uma viagem entre amigas se transformou em uma vontade constante de voltar ao rio, aprender mais e viver novas experiências.
A pesca esportiva passou a ocupar um espaço cada vez maior na minha vida.
Vieram novas viagens, novos desafios, o interesse pelos equipamentos, pelas estratégias e pelo comportamento dos peixes. Quanto mais eu aprendia, mais percebia que pescar envolvia muito mais conhecimento do que imaginava.
E aquela mulher que inicialmente procurava alguns dias de descanso acabou encontrando na pesca esportiva um novo caminho.
Hoje, minha realidade é completamente diferente daquela que eu vivia em Goiânia.
Foi também através dessa vivência na pesca esportiva que conheci meu marido, Eribert Marquez, um pescador com muitos anos de experiência, com quem tenho o privilégio de aprender diariamente e compartilhar essa paixão.
Hoje, vivemos no coração da Amazônia, na confluência dos rios Arirarrá e Negro, na região de Barcelos, onde trabalhamos juntos na operação Amazon Xplor.
Aqui, a pesca esportiva deixou de ser uma atividade que eu praticava durante algumas viagens para fazer parte da minha vida diariamente.
Tenho a oportunidade de acompanhar as transformações do rio, observar as condições de pesca, conversar com guias experientes e aprender continuamente sobre uma das espécies mais fascinantes da nossa região: o tucunaré-açu.
Viver na Amazônia me trouxe uma perspectiva diferente. Hoje compreendo que o sucesso de uma pescaria não depende apenas da habilidade do pescador ou da escolha de uma boa isca. Existe uma relação muito mais complexa entre o peixe, o ambiente, o comportamento das águas e as estratégias utilizadas.
E é justamente essa relação que mais desperta minha curiosidade.
Ao mesmo tempo, nunca me esqueci de como tudo começou.
Talvez por isso eu tenha encontrado tanto propósito em promover pescarias femininas, incentivando outras mulheres a conhecer esse universo. Mas não apenas proporcionando a experiência de uma viagem. Quero que elas tenham acesso a conhecimento, aprendam a escolher seus equipamentos, compreendam estratégias e desenvolvam autonomia para pescar com confiança.
Acredito que uma mulher bem preparada tecnicamente consegue aproveitar muito mais tudo o que uma pescaria pode oferecer.
É com essa bagagem, construída entre experiências, aprendizados e observações diárias, que inicio minha participação como colunista da Pesca & Companhia.
Quero compartilhar um pouco da Amazônia que conheço e vivencio, trazer informações sobre o comportamento dos peixes, técnicas, equipamentos e, principalmente, reflexões sobre aquilo que observamos dentro do rio.
Também quero aproximar o conhecimento adquirido na prática das informações científicas que nos ajudam a compreender melhor esse ambiente.
Não tenho a pretensão de saber tudo. Muito pelo contrário. Quanto mais tempo passo na Amazônia, mais perguntas surgem e maior se torna minha vontade de aprender.
Se existe algo que a pesca me ensinou, é que cada dia no rio pode trazer uma descoberta.
E pensar que tudo começou quando eu só precisava de alguns dias de paz.
Sejam bem-vindos à minha coluna.
Sobre Tanilla Moura
Pescadora esportiva e empresária do turismo de pesca, vive na confluência dos rios Arirarrá e Negro, em Barcelos (AM). Seu cotidiano é marcado pela observação dos rios, do comportamento dos peixes e das transformações da floresta ao longo de todo o ano. Atua na operação Amazon Xplor e promove expedições femininas, compartilhando conhecimento técnico e experiências de quem fez da Amazônia seu lar.
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