
A pescaria pode representar muito mais do que a busca pelo peixe. Estudos recentes começam a medir uma percepção comum entre pescadores: passar algumas horas na água, em contato com a natureza e longe da rotina, está associado a melhores indicadores de saúde mental.
Um dos levantamentos mais recentes analisou 1.882 pescadores de truta da Nova Zelândia. Publicado em 2025 na revista científica Leisure Sciences, o estudo apontou que os pescadores mais ativos apresentaram probabilidade 52% menor de sofrimento psicológico moderado ou grave, 46% menor de ansiedade moderada ou grave e 52% menor de relatar pensamentos de automutilação.
Os pesquisadores também observaram uma relação entre maior participação na pesca e melhores indicadores de bem-estar. Pescar acompanhado, caminhar para alcançar os pontos de pesca e entrar na água estavam entre os fatores associados aos resultados positivos.
Outro estudo, com 1.752 homens no Reino Unido, chegou a conclusões semelhantes. Os participantes que pescavam regularmente apresentaram melhores indicadores de bem-estar e menores níveis de sintomas de ansiedade e depressão.
Um dos autores da pesquisa, Lee Smith, professor de Saúde Pública da Anglia Ruskin University, relacionou os resultados também aos chamados blue spaces, ambientes naturais associados à presença de água.
“Sabemos, por estudos anteriores, que a exposição a ambientes aquáticos, conhecidos como espaços azuis, está associada à melhora da saúde mental e do bem-estar”, afirmou o pesquisador em declaração publicada pela universidade, em tradução livre.
A relação entre pesca e saúde mental também começou a chegar a programas experimentais. O psicólogo britânico Dr. Mark Wheeler, cofundador da iCARP, participa de iniciativas que utilizam pesca e atividades ao ar livre com pessoas atendidas por serviços de saúde mental.
“A ideia é levar as pessoas para ambientes ao ar livre, melhorar seu bem-estar físico, aumentar a interação social com outras pessoas e desenvolver suas redes de apoio”, explicou Wheeler em material publicado pelo Essex Partnership University NHS Foundation Trust, em tradução livre.
Uma pesquisa ligada a essa linha de trabalho pretende avaliar 198 participantes, utilizando uma intervenção de dois dias baseada em pesca, natureza e socialização. O acompanhamento está previsto para ocorrer novamente após seis meses e um ano.
Outro estudo, publicado em 2026, avaliou 364 pescadores recreativos mais velhos na província de Yunnan, na China. A pesquisa encontrou associação positiva entre a pesca e o bem-estar subjetivo e analisou três necessidades psicológicas: autonomia, competência e pertencimento.
No Brasil, essa sensação aparece no relato de Willian Melo, coordenador do curso de Biblioteconomia da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Pescador desde a infância, ele encontrou na atividade uma maneira de se afastar temporariamente da pressão da rotina profissional.
“Desenvolvi o gosto pela pesca com meu pai, que adorava pescar com tarrafa e rede. Comecei a acompanhá-lo nas pescas no interior de Pernambuco, onde morava, e aí comecei a pescar com vara de bambu”, contou em reportagem publicada pela Ufal.
Para Willian, entretanto, o resultado de uma pescaria não pode ser medido apenas pela quantidade de peixes capturados.
“Você fica rodeado de amigos, tem boas conversas e até o silêncio é um silêncio confortável e saudável, não tem como não amar”, afirmou.
A experiência também permanece positiva quando o peixe simplesmente não aparece.
“E como nem sempre sai peixe, muitas vezes o que sobra é o momento, que costuma sempre ser incrível”, disse.
Em Jequiá da Praia, em Alagoas, as pescarias renderam ainda outro elemento apontado pelas pesquisas: a convivência.
“São dias lindos, com uma paisagem incrível. Todo mundo no barco torce e vibra um pelo outro. É um senso de comunidade e de conexão que acabamos perdendo com a correria do dia a dia”, relatou Willian.
Os números ajudam a explicar por que o tema passou a interessar aos pesquisadores: 1.882 pescadores em um estudo, 1.752 em outro, 364 em uma terceira pesquisa e mais 198 participantes previstos em uma investigação experimental.
Mas existe uma ressalva importante. Grande parte das pesquisas disponíveis identifica associações, e não uma relação direta de causa e efeito. Portanto, não é possível afirmar que pescar reduza sozinho em 52% o risco de problemas psicológicos, nem tratar a atividade como substituta de acompanhamento psicológico ou médico.
O que os estudos indicam é que a pesca reúne vários elementos já relacionados ao bem-estar: água, natureza, atividade física, concentração, aprendizado, sensação de realização e interação social. Para milhões de pescadores, existe ainda um componente difícil de colocar em uma estatística: algumas horas em que o celular, o trabalho e os problemas deixam de ser o centro das atenções.

Fontes
Leisure Sciences — estudo com 1.882 pescadores
PubMed — estudo britânico com 1.752 participantes
Anglia Ruskin University — declarações de Lee Smith
NHS/EPUT — Dr. Mark Wheeler e pesca terapêutica
Frontiers in Psychology — estudo com 364 pescadores
Health Research Authority — estudo previsto com 198 participantes