
Água ficando rasa, pedras submersas, bancos de areia, troncos e galhadas no caminho. Para quem pesca em rios, chegar ao ponto desejado nem sempre depende apenas de encontrar o peixe: em determinados trechos, a própria navegação vira um obstáculo. O hélice exposto abaixo do casco pode limitar o avanço e aumentar o risco de impactos. É justamente para enfrentar esse cenário que existem os motores de popa com propulsão Jet, ou a jato d’água.
Diferentemente de um motor de popa convencional, no qual um hélice gira dentro da água para impulsionar a embarcação, o Jet utiliza uma bomba para aspirar água e expulsá-la em alta velocidade, produzindo o empuxo que movimenta o barco. Como não há um hélice exposto abaixo do conjunto, a tecnologia é destinada principalmente à navegação em águas rasas e locais com obstáculos.
Por trás dessa vantagem existe uma diferença importante de engenharia. Um Mercury Jet de 105 HP utiliza um bloco de 150 HP, enquanto o modelo de 80 HP utiliza um bloco de 100 HP. Segundo a Mercury, a diferença de eficiência da propulsão Jet pode chegar a aproximadamente 30% em relação a um conjunto equivalente com hélice. A fabricante utiliza motores de maior potência para compensar essa característica e informa ao consumidor a potência efetivamente entregue na propulsão.
No Brasil, são atualmente cinco modelos Jet, de 25 HP a 105 HP, segundo a empresa. A principal aplicação está em embarcações de alumínio de pequeno e médio porte utilizadas na pesca recreativa e esportiva. A proposta não é substituir o hélice em qualquer situação, mas oferecer uma alternativa justamente quando pouca profundidade, pedras, bancos de areia e outros obstáculos dificultam a chegada do pescador ao ponto desejado.
“Em um sistema de propulsão Jet, podemos considerar uma diferença de eficiência de até aproximadamente 30% em relação a um conjunto equivalente com hélice. Esse resultado varia conforme fatores como casco, peso, carga, condições da água e tipo de operação. A Mercury já considera essa característica no desenvolvimento dos motores e utiliza blocos de maior potência para compensar essa diferença”, explica Jorge Araújo, Gerente de Vendas da Mercury.
Ele cita dois exemplos que ajudam a entender os números.
“O Hidrojet de 80 HP, por exemplo, utiliza um bloco de 100 HP. Já o modelo de 105 HP utiliza um bloco de 150 HP. Assim, a potência divulgada corresponde à potência efetivamente entregue na propulsão Jet.”
O que é e como funciona um motor Jet?
Apesar de ser chamado de motor a jato d’água, não se trata de uma turbina semelhante à utilizada em um avião. O nome está relacionado à maneira como a água é utilizada para produzir o deslocamento.
Em um motor de popa convencional, a potência produzida pelo motor chega a um hélice, que gira dentro da água e impulsiona a embarcação. No Jet, a água entra pelo sistema de admissão, é acelerada por uma bomba com rotor e depois expelida em alta velocidade. A reação ao jato de água gera o empuxo que faz o barco avançar.
A principal consequência prática está embaixo da embarcação. Como o sistema dispensa um hélice exposto, reduz-se a projeção dos componentes de propulsão abaixo do barco. É essa característica que torna o Jet especialmente interessante quando a profundidade diminui.
“A principal diferença está na forma como a força é transmitida à água. Enquanto o motor convencional utiliza um hélice, o sistema Jet utiliza uma bomba que aspira e expulsa a água em alta velocidade para gerar propulsão.”
Segundo Araújo, não se trata de uma tecnologia criada para substituir o hélice em todas as aplicações.
“A linha Mercury Jet foi desenvolvida para uma aplicação específica: águas rasas e ambientes com obstáculos (como pedras e troncos). Ela não substitui o hélice, mas atende a uma demanda de mercado por mais mobilidade, segurança e acesso em regiões onde a propulsão convencional encontra limitações.”

Por que 150 HP viram 105 HP no Jet?
Essa é uma das características que mais chamam atenção quando se olha a ficha técnica.
Como a maneira de transmitir potência para a água é diferente, existe uma diferença de eficiência entre os sistemas. De acordo com a Mercury, no Jet ela pode chegar a aproximadamente 30% em relação a um conjunto equivalente equipado com hélice.
Por isso, a potência do motor utilizado como base pode ser superior à potência efetivamente disponível na propulsão.
No caso do 105 Jet, são 150 HP na plataforma utilizada para entregar 105 HP na propulsão Jet. Isso representa uma diferença nominal de 45 HP entre os dois números. No 80 Jet, a relação informada pela fabricante é de 100 HP no bloco para 80 HP na propulsão.
“Nos motores Mercury Jet, a potência divulgada corresponde à potência efetivamente disponível na propulsão. Para isso, a Mercury considera as características do sistema Jet no dimensionamento do motor.
No caso do 105 Jet, por exemplo, os 105 HP representam a potência efetivamente entregue pelo conjunto na propulsão Jet.”
A plataforma utilizada pelo 105 Jet tem 3,0 litros e quatro cilindros em linha, segundo informações técnicas oficiais da Mercury. O conjunto utiliza injeção eletrônica de combustível (EFI).
Quando a água rasa muda a pescaria
Os números ajudam a explicar a engenharia. Na prática, porém, a razão de existir do Jet aparece quando a profundidade começa a diminuir.
Uma pescaria em rio pode exigir quilômetros de deslocamento até o ponto escolhido. Nesse percurso, o pescador pode encontrar bancos de areia, pedras submersas, troncos, galhadas e vegetação, além de mudanças bruscas de profundidade.
Com um hélice convencional, esses obstáculos exigem atenção porque componentes do sistema de propulsão ficam projetados abaixo da embarcação.
No Jet, a ausência de um hélice exposto reduz essa limitação e permite operar em situações de menor profundidade.
“Os motores Mercury Jet foram desenvolvidos para ambientes onde o hélice representa uma limitação ou risco, como rios rasos, bancos de areia, regiões com pedras submersas, galhadas e vegetação aquática. Também são uma excelente alternativa para pesca esportiva e operações em áreas de difícil acesso.”
Para o pescador esportivo, a diferença pode representar acesso a locais que seriam mais difíceis de alcançar com uma configuração convencional.
“Como o sistema de propulsão não utiliza um hélice exposto abaixo do casco, o Jet permite navegar com muito mais segurança em águas de baixa profundidade e superar obstáculos que poderiam limitar uma embarcação convencional.”

O sistema também precisa enfrentar detritos
Retirar o hélice exposto resolve um problema, mas a própria maneira como o Jet funciona cria outro desafio.
Para gerar propulsão, o sistema precisa captar água. Isso significa que areia e outros materiais presentes no ambiente podem chegar à entrada do conjunto.
Por isso, alguns componentes precisam ser dimensionados para essa condição. Nos modelos Jet apresentados pela Mercury, a fabricante utiliza rotor de aço inoxidável, material destinado a suportar detritos abrasivos que podem ser aspirados durante a navegação.
A parte elétrica também apresenta números diferentes conforme a potência. No 105 Jet, o alternador é de 60 amperes. Na família 65–80 HP, a Mercury informa alternador de 35 amperes. Nos modelos menores, são 17 A no 25 HP e até 18 A nos modelos de 35 e 40 HP, de acordo com as especificações da fabricante.
Para quem pesca, geração de energia ganhou importância com a quantidade de eletrônicos presentes nas embarcações. Sonar, GPS, telas multifuncionais e outros equipamentos podem permanecer ligados durante horas de navegação e pescaria.
Cinco modelos Jet no Brasil
Segundo Jorge Araújo, a Mercury comercializa atualmente cinco opções Jet no mercado brasileiro, começando nos 25 HP e chegando aos 105 HP.
São elas:
25 HP Dois Tempos
25 HP Quatro Tempos
40 HP Quatro Tempos
80 HP Quatro Tempos
105 HP Quatro Tempos
São 80 HP de diferença entre as extremidades da linha, permitindo aplicações em diferentes configurações de embarcações.
“A linha atende a uma demanda bastante específica do mercado, principalmente em regiões de rios e águas rasas onde a utilização de motores com hélice é limitada. No Brasil, enxergamos como principal aplicação as embarcações de alumínio de pequeno e médio porte, voltadas para a pesca, tanto recreativa quanto esportiva.”
A variedade de potência também permite dimensionar o conjunto conforme tamanho, peso e finalidade da embarcação.
“Com cinco opções de potência, conseguimos atender diferentes tamanhos de embarcação e necessidades de uso, levando mais mobilidade, desempenho e acesso para quem precisa navegar em ambientes onde a propulsão convencional encontra limitações.”
Jet perde em velocidade?
A diferença de eficiência de até 30% naturalmente leva a outra pergunta: o que acontece com o desempenho?
Não existe uma resposta única.
Casco, peso da embarcação, quantidade de pessoas, equipamentos transportados, distribuição da carga e condições da água interferem no comportamento do conjunto.
Com o barco corretamente dimensionado, segundo a Mercury, a velocidade final pode se aproximar daquela obtida com um sistema convencional.
“Com o conjunto corretamente dimensionado e o casco adequado à aplicação, o Mercury Jet oferece excelente saída, aceleração rápida, resposta imediata aos comandos e curto tempo para entrar em planeio. A velocidade final também pode ficar muito próxima à obtida com um sistema convencional de hélice, dependendo das características do conjunto.”
O projeto do barco também interfere.
“Algumas adaptações estruturais no casco podem contribuir para otimizar ainda mais o desempenho. Já a capacidade de carga está relacionada principalmente ao projeto e à estrutura da embarcação.”
Isso torna inadequada uma comparação baseada apenas na potência indicada na tampa do motor. Para avaliar Jet e hélice é preciso considerar motor, casco, peso, carga e ambiente de utilização como um conjunto.

E o consumo?
A diferença de eficiência de até 30% não significa automaticamente que um Jet consumirá 30% mais combustível.
A Mercury não estabelece, nas respostas encaminhadas à reportagem, um percentual fixo de diferença de consumo entre os dois sistemas. A empresa ressalta que uma comparação direta depende de fatores como casco, carga, altitude e condições da água.
Eficiência da propulsão e consumo de combustível são medidas relacionadas, mas não equivalentes.
Para comparar consumo de forma adequada seria necessário colocar configurações equivalentes sob condições semelhantes de navegação, levando em conta também velocidade, rotação, peso e características do casco.
Jet ou hélice: qual é melhor para pescar?
Não existe um vencedor para todas as pescarias.
Em condições ideais de profundidade, sem obstáculos e quando eficiência e velocidade máxima são prioridades, a própria Mercury reconhece que o hélice tradicional pode apresentar vantagem.
O cenário muda quando a rota passa por águas rasas, bancos de areia, pedras, galhadas e outros obstáculos.
Nesse ambiente, conseguir continuar navegando pode valer mais do que alcançar alguns quilômetros por hora adicionais de velocidade final.
“É importante lembrar que uma comparação direta entre Jet e hélice depende de diversas variáveis, como casco, carga, altitude e condições da água. Em condições ideais, o hélice tradicional pode apresentar vantagem em eficiência e velocidade máxima, mas o Mercury Jet oferece uma vantagem operacional decisiva: a possibilidade de acessar e navegar em áreas onde um sistema convencional muitas vezes não consegue operar.”
É justamente aí que os números deixam de ser apenas ficha técnica. O 105 Jet utiliza uma plataforma de 150 HP para entregar 105 HP na propulsão, enquanto o sistema pode apresentar uma diferença de eficiência de até 30% em relação a um conjunto equivalente com hélice.
A contrapartida aparece quando o pescador chega ao rio: se pedras, bancos de areia, troncos, galhadas e pouca profundidade estão entre o barco e o ponto de pesca, a capacidade de continuar avançando passa a fazer parte do desempenho.
Sobre a Mercury Marine
A Mercury Marine integra a Brunswick Corporation e atua no desenvolvimento de motores e soluções de propulsão para o setor náutico. De acordo com o site oficial da empresa, mais de 5,2 mil pessoas trabalham na Mercury em diferentes localidades ao redor do mundo. A sede mundial fica em Fond du Lac, Wisconsin, nos Estados Unidos, e o Rio de Janeiro está entre as sedes regionais da companhia. A empresa mantém operações de fabricação nos Estados Unidos, México, Japão, Bélgica e China, além de instalações de testes nos Estados Unidos.