
A pesca da sardinha-verdadeira (Sardinella brasiliensis) entra em uma longa pausa a partir de 1º de outubro. O período de defeso se estende até 28 de fevereiro, totalizando 151 dias de proteção da espécie em uma das regiões pesqueiras mais importantes do Brasil. A regra abrange a área entre o Cabo de São Tomé, no Rio de Janeiro, e o Cabo de Santa Marta, em Santa Catarina.
São praticamente cinco meses sem captura, justamente para proteger uma espécie que forma grandes cardumes, sustenta uma importante cadeia pesqueira e apresenta oscilações expressivas de abundância de um ano para outro.
Para dimensionar o tamanho dessa pescaria, basta olhar para Angra dos Reis (RJ). Segundo a prefeitura, a temporada encerrada em setembro de 2025 registrou aproximadamente 31 mil toneladas de sardinha no município. Em 5 de agosto de 2025, foram desembarcadas 1.016 toneladas em apenas um dia — mais de 1 milhão de quilos em 24 horas.
Mas que peixe é a sardinha-verdadeira?
A sardinha-verdadeira é um peixe marinho pequeno, prateado e de corpo comprimido lateralmente. A espécie vive em grandes cardumes em águas costeiras e pode também entrar em baías e estuários. Sua principal área de ocorrência e exploração no Brasil está no litoral Sudeste e Sul.
É justamente o comportamento de formar grandes concentrações que possibilita a pesca em escala elevada. A frota industrial utiliza principalmente traineiras e redes de cerco: depois que o cardume é localizado, a rede é lançada ao redor dos peixes e fechada, permitindo capturas que podem representar toneladas em uma única operação.
A sardinha também ocupa uma posição importante na cadeia alimentar marinha. Peixes maiores, aves e outros predadores utilizam pequenos peixes pelágicos como alimento, enquanto a própria sardinha se alimenta principalmente de organismos presentes no plâncton.
Levantamentos científicos mostram também como ela é pequena diante do volume que movimenta. Em um estudo de desembarques realizado no Rio de Janeiro, pesquisadores analisaram 19.225 indivíduos no cais e outros 4.859 em laboratório. Os exemplares mediram entre 13 e 29,5 centímetros, com predominância de peixes entre 18 e 23 centímetros.
Ou seja: um peixe com cerca de 20 centímetros pode sustentar desembarques de milhares de toneladas.
Onde ela é pescada?
A área do defeso ajuda a mostrar o coração dessa atividade no Brasil: aproximadamente do norte do Rio de Janeiro ao sul de Santa Catarina, passando por São Paulo e Paraná.
O limite oficial começa no Cabo de São Tomé (RJ) e termina no Cabo de Santa Marta (SC).
É uma faixa de litoral que reúne alguns dos principais portos e polos pesqueiros do país. Angra dos Reis, por exemplo, ganhou enorme relevância nos desembarques. Em Santa Catarina, municípios como Itajaí e Navegantes historicamente concentram parte importante da estrutura industrial associada à pesca marinha.
Estudos técnicos do Ibama e ICMBio descrevem a sardinha-verdadeira como uma espécie característica da plataforma continental do Sudeste brasileiro. Pesquisas hidroacústicas — realizadas com equipamentos capazes de detectar e estimar concentrações de peixes debaixo da água — são utilizadas há décadas para estudar sua distribuição e biomassa.
Por que parar a pesca durante 151 dias?
O defeso existe principalmente para proteger etapas fundamentais do ciclo biológico da sardinha e reduzir a pressão pesqueira sobre o estoque.
Pela regulamentação atualmente divulgada pelo Ministério da Pesca e Aquicultura, o fechamento ocorre de 1º de outubro a 28 de fevereiro. A regra está prevista na Instrução Normativa SAP/MAPA nº 18/2020.
Na prática, o calendário fica assim: a captura é interrompida em outubro, novembro, dezembro, janeiro e fevereiro, podendo ser retomada após o encerramento do período, desde que sejam respeitadas as demais regras de ordenamento.
A necessidade de acompanhar a espécie não é recente. A sardinha apresenta fortes oscilações naturais e pesqueiras, e o governo mantém mecanismos específicos de monitoramento. A regulamentação prevê coleta de informações junto às indústrias, entrevistas de cais e biometria dos peixes desembarcados, entre outros instrumentos.
Um Comitê Científico específico também foi criado para avaliar as medidas de gestão aplicadas à pesca de cerco/traineira da sardinha-verdadeira e da sardinha-laje, utilizando informações científicas para formular recomendações ao ordenamento.

31 milhões de quilos em uma temporada
Os números de Angra dos Reis ajudam a transformar a dimensão da pesca em algo mais fácil de visualizar.
As 31 mil toneladas registradas na temporada correspondem a aproximadamente 31 milhões de quilos.
Se fosse considerado, apenas como exercício matemático, um peixe médio de 100 gramas, seriam equivalentes a cerca de 310 milhões de sardinhas. Essa comparação não representa uma contagem real dos peixes capturados — o peso individual varia —, mas mostra por que pequenas variações no tamanho dos cardumes podem significar enormes diferenças na produção.
O recorde diário informado pelo município também impressiona: 1.016 toneladas em um único dia, ou 1,016 milhão de quilos. Isso representa aproximadamente 3,3% de todas as 31 mil toneladas daquela temporada desembarcadas em apenas 24 horas.
É justamente essa capacidade de concentrar milhões de indivíduos em cardumes que torna a sardinha produtiva para a pesca e, ao mesmo tempo, exige atenção especial sobre o estoque.
Os números ajudam a explicar por que tanto cuidado é necessário. Estamos falando de um peixe que normalmente mede poucas dezenas de centímetros, mas que pode gerar desembarques superiores a 1 milhão de quilos em um único dia.
Entre 1º de outubro e 28 de fevereiro, porém, a lógica se inverte: em vez de buscar o cardume, a prioridade passa a ser dar tempo para que o ciclo natural da sardinha ajude a sustentar as próximas temporadas.
Fontes
Ministério da Pesca e Aquicultura — Sardinha-verdadeira e regras do defeso
Ibama — tabela oficial dos defesos marinhos
MPA — Monitoramento e Gestão da sardinha-verdadeira
MPA — Comitê Científico da sardinha
ICMBio — pesquisa sobre biomassa da sardinha-verdadeira
Prefeitura de Angra dos Reis — produção de 31 mil toneladas e recorde diário de 1.016 toneladas