
Se alguém me perguntasse quando a pesca entrou na minha vida, eu diria que não me lembro de um momento exato. Afinal, essa história começou quando eu tinha apenas 2 anos de idade, no meu estado, Mato Grosso do Sul.
Meus pais já me levavam para pescar de barco, e boa parte das nossas férias e feriados era vivida perto dos rios, em ranchos de pesca de amigos. Desde pequena, eu gostava da natureza, dos animais e de tudo o que envolvia a vida ao ar livre. Sempre que meu pai ia pescar, eu queria ir junto. Mesmo quando minha mãe não podia acompanhar, eu fazia questão de ir com ele, e minha infância foi muito marcada por isso!
Por gostar tanto da natureza, cheguei a pensar em cursar Biologia, mas acabei escolhendo o Turismo. Em 2007, comecei a faculdade de Turismo em Ambientes Naturais, em Dourados (MS), e me formei em 2011. Ainda durante a graduação, já organizava grupos e excursões para eventos, descobrindo que gostava não apenas de viajar, mas também de reunir pessoas e proporcionar experiências especiais.
Naquela época, eu ainda não imaginava que essas duas paixões, o turismo e a pesca, se tornariam a base da minha vida profissional.
Quando a paixão virou profissão
Minha relação com a pesca ficou ainda mais forte quando meus pais adquiriram um rancho às margens do Rio Aquidauana, na região da Estrada-Parque, no Portal do Pantanal. Com isso, nossas idas ao rio se tornaram cada vez mais frequentes, e aquele lugar passou a ocupar um espaço ainda maior na minha história.
Em 2012, depois de formada e já atuando como turismóloga, meus pais adquiriram terrenos vizinhos ao nosso, e construímos uma pousada de pesca.
No começo, nosso público era praticamente 100% masculino. Recebíamos pescadores de várias partes do Brasil, mas queríamos que a pousada também fosse um lugar acolhedor para famílias e mulheres. Por isso, fomos adaptando e construindo espaços para atender a diferentes públicos.
Eu observava que poucas mulheres acompanhavam seus maridos nas viagens de pesca e, quando iam, muitas acabavam ficando na piscina enquanto eles pescavam. E foi assim que uma pergunta começou a surgir na minha cabeça: será que elas realmente não gostavam de pescar ou simplesmente nunca tinham tido a oportunidade de experimentar essa paixão?
Essa curiosidade me fazia olhar para a pesca feminina de uma maneira diferente. Aos poucos, fui percebendo que havia espaço para incentivar mais mulheres a conhecer esse universo e descobrir o quanto a pesca poderia ser prazerosa para elas também.
Hoje, ao olhar para o início da minha história, vejo como a vida me trouxe de volta às minhas próprias raízes. Moro à beira do rio, justamente naquele lugar onde, desde criança, eu já pescava e vivia tantos momentos especiais com meus pais. O que antes era destino de férias, feriados e pescarias em família tornou-se o meu lar.

Grupo de pesca: mulheres conectadas pela mesma paixão
Por volta de 2014, passei a fazer parte do Girls Pesca, um grupo pioneiro que reunia mulheres de várias partes do Brasil apaixonadas pela pesca. Era muito legal acompanhar as conversas pelo WhatsApp, trocar experiências e ver as fotos das pescarias e dos peixes de cada uma.
Quem morava mais perto também conseguia se encontrar para pescar. Como não havia outras integrantes próximas de mim, eu continuava pescando na pousada e compartilhando minhas experiências com o grupo.
Naquela época, encontrar roupas com proteção solar desenvolvidas especialmente para mulheres que pescavam era muito difícil. As opções eram poucas, e a maioria das peças disponíveis eram masculinas. Eu pescava de calça jeans, bota e camisa de manga comprida do meu pai! (risos)
Foi nesse cenário que o grupo começou a desenvolver suas primeiras camisas e seus primeiros bonés femininos de pesca. Hoje, pode parecer algo simples, mas fazer parte daquele movimento foi muito especial. Estávamos ajudando a abrir caminhos em um universo no qual a presença feminina ainda era bem menor.
Tenho muito orgulho de ter participado dessa fase pioneira e de ver tantas mulheres que fizeram parte daquele começo continuarem na pesca até hoje. De lá para cá, muita coisa mudou, e acompanhar esse crescimento é uma das partes mais gratificantes da minha trajetória.
Das redes sociais às primeiras oportunidades
Na mesma época, comecei a compartilhar minhas pescarias nas redes sociais, principalmente no Facebook e no Instagram. As pessoas comentavam, faziam perguntas e demonstravam curiosidade sobre os lugares onde eu pescava e sobre as minhas experiências. Aos poucos, fui conquistando seguidores e recebendo convites para participar de matérias em jornais e entrevistas. Tudo aconteceu gradualmente, enquanto eu seguia vivendo a pesca da maneira que sempre vivi: com naturalidade e paixão.
Também foi durante esse período que comecei a perceber o quanto a pesca estava mudando e evoluindo.
No início, eu pescava somente com iscas naturais e não conhecia direito a prática do pesque e solte. Naquela época, lembro de apenas dois clientes que costumavam devolver os peixes à água. A maioria deles levava os exemplares para casa, e as regras e os limites de captura eram diferentes dos que conhecemos hoje.
Ao longo dos anos, pude acompanhar de perto a evolução de muita coisa relacionada à pesca: os equipamentos, os produtos, o perfil dos pescadores, as normas e a própria consciência ambiental. Também acompanhei a evolução do turismo de pesca esportiva e, o mais importante, vi crescer a preocupação com a preservação dos peixes e dos rios. Com isso, entendi cada vez mais a importância de trabalhar com responsabilidade.

Quando descobri o mundo das iscas artificiais
Com o tempo, também fui conhecendo melhor a pesca com iscas artificiais. No começo, confesso que ficava pensando: como é que um peixe vai morder um pedaço de plástico? (risos)
Mas bastou começar a experimentar para descobrir um universo completamente novo. Aprendi novas técnicas, conheci diferentes modelos e passei a enxergar a pescaria por outras perspectivas.
Por volta de 2018, comecei a praticar o pesque e solte. Minha relação com a pesca foi amadurecendo, assim como meu entendimento sobre a importância de preservar os recursos naturais. Essa evolução continua até hoje. A cada pescaria, existe algo novo para aprender, seja sobre equipamentos, técnicas, espécies, destinos ou sobre nós mesmos.
Amazônia: uma viagem que dividiu águas
Em 2021, vivi uma experiência que marcou profundamente minha história: fiz minha primeira viagem de pesca à Amazônia. Era um sonho que eu já carregava havia muitos anos, e a viagem aconteceu em um grupo exclusivamente feminino.
Foi uma viagem especial, não apenas pela grandiosidade da região e pelas experiências de pesca, mas também pela oportunidade de estar cercada de mulheres que compartilhavam a mesma paixão que eu.
O retorno dessa experiência nas minhas redes sociais foi enorme. Muitas pessoas ficaram curiosas, fizeram perguntas e demonstraram vontade de viver algo parecido.
Logo naquela mesma semana, recebi uma proposta de uma pousada da região e surgiu a oportunidade de organizar meu primeiro grupo para a Amazônia, reunindo mulheres e casais. Consegui preencher todas as vagas da semana com apenas três meses de vendas.
A experiência que eu já tinha adquirido organizando grupos e excursões desde a faculdade fez toda a diferença. Percebi que poderia unir minha formação em Turismo à minha paixão pela pesca para ajudar outras pessoas a realizarem seus sonhos.
Foi assim que o turismo de pesca passou a ocupar um espaço cada vez maior na minha vida profissional. E, para completar, resolvi fazer uma graduação em Arquitetura, pensando em, quem sabe, trabalhar futuramente no ramo da construção hoteleira. E, se forem hotéis de pesca, com certeza me sentirei em casa!
Hoje, tenho minha própria agência de pesca e turismo, ao lado do meu noivo, Rafael. Juntos, trabalhamos para proporcionar experiências especiais e aproximar mais pessoas desse universo que tanto amamos.
A pesca também é feita de pessoas
Minha história com o Rafael também começou na pesca, mas essa é uma história que ainda vou contar com mais detalhes em outra oportunidade! (risos)
Ele é formado em Biologia e também é apaixonado pela pesca e pela natureza. Ter ao meu lado alguém que compartilha dos mesmos interesses, soma conhecimento e acredita no meu trabalho contribuiu muito para o meu crescimento pessoal e profissional.
Trabalhar juntos nos permite trocar experiências, aprender um com o outro e transformar ideias em projetos. E, para mim, ter essa parceria também trouxe mais segurança para enfrentar os desafios de um setor em que as mulheres ainda podem encontrar preconceitos e precisar provar constantemente sua capacidade.
Acredito muito na importância de ter ao nosso lado pessoas que nos apoiam, incentivam nossos sonhos e respeitam aquilo que construímos. Ninguém precisa fazer tudo sozinho, e as boas parcerias podem abrir caminhos incríveis.

2022–2024: reconhecimento, parcerias e um novo capítulo
Em 2022, visitei pela primeira vez o Pesca & Companhia Trade Show, a maior feira de pesca e esportes outdoor da América Latina.
Aquela visita foi muito marcante. Comecei a perceber que meu trabalho nas redes sociais e minha trajetória na pesca estavam me levando a conhecer pessoas, marcas e profissionais importantes do setor. Foi também nesse período que surgiram minhas primeiras parcerias e meus primeiros patrocínios.
Ainda em 2022, participei do lançamento do primeiro evento Anzol Rosa, ao lado da equipe local e de sua fundadora, Joice Marques. O evento reuniu cerca de 500 mulheres, mostrando a força e o potencial da pesca feminina. Neste mês de outubro, o Anzol Rosa chega à sua 3ª edição no Mato Grosso do Sul, reforçando a importância de iniciativas que incentivam cada vez mais mulheres a fazer parte desse universo.
Ver tantas mulheres reunidas pela mesma paixão reforçou algo em que eu já acreditava: nós temos espaço na pesca, podemos ocupar diferentes posições nesse mercado e somos capazes de construir trajetórias incríveis.
Depois disso, vieram mais convites para eventos, novas oportunidades, pescarias com grandes nomes do setor e experiências em lugares que eu sonhava conhecer. Cada vivência me trouxe novos aprendizados e me ajudou a crescer.
Em 2024, vivi mais um momento muito especial na minha trajetória: recebi meu primeiro convite para ser embaixadora do Pesca & Companhia Trade Show, a maior feira de pesca da América Latina.
Para mim, esse reconhecimento teve um significado enorme, pois representava não apenas as oportunidades que haviam surgido ao longo dos anos, mas também todo o trabalho, a dedicação e a seriedade com que eu vinha construindo minha história na pesca. A feira, que em 2022 havia marcado minhas primeiras grandes conexões e parcerias no setor, passou a fazer parte da minha trajetória de uma maneira ainda mais especial.
Com o passar do tempo, novas portas foram se abrindo. Além de continuar como embaixadora do Pesca & Companhia Trade Show até hoje, também recebi a oportunidade de representar outras grandes marcas do segmento da pesca, incluindo fabricantes de iscas artificiais, marcas de vestuário com peças assinadas por mim e empresas de equipamentos de qualidade.
Cada parceria que surgia era resultado de um caminho construído com dedicação, trabalho e muita paixão pelo que eu fazia. E, assim, as oportunidades foram surgindo e me permitindo crescer ainda mais dentro desse universo.
Sejam bem-vindos à minha coluna!
Hoje, começo um novo capítulo dessa história ao me tornar colunista da Pesca & Companhia. Receber esse convite é uma alegria enorme e também uma oportunidade de compartilhar um pouco mais daquilo que vivo, aprendo e acredito.
Quero que este espaço seja um ponto de encontro para quem ama a pesca, gosta de viajar, busca novas experiências e acredita que sempre existe algo novo para descobrir.
Por aqui, vou falar sobre destinos de pesca, viagens, experiências pelo Brasil, dicas, assuntos importantes para o nosso setor e histórias de pessoas que inspiram outras pessoas. Quero trazer também o universo da pesca feminina, nossas conquistas, desafios e tudo o que ainda podemos construir juntas.
Mais do que falar sobre peixes e pescarias, quero compartilhar histórias reais, aprendizados e experiências que possam inspirar quem já vive essa paixão e também quem está começando agora.
Sejam todos muito bem-vindos à minha coluna na Pesca & Companhia! Convido você a me acompanhar por aqui, participar, compartilhar suas experiências e embarcar comigo nessa nova jornada. E quem sabe não dividimos o mesmo barco em uma próxima aventura?
Um grande abraço e ótimas pescarias!
Gabi Brasil
Sobre Gabi Brasil
Turismóloga, pescadora e empresária do turismo de pesca, Gabriela Brasil tem suas raízes no Pantanal sul-mato-grossense e vive a pesca desde criança. Hoje, atua na criação de experiências e viagens de pesca pelo Brasil.
Embaixadora do Pesca & Companhia Trade Show, registra e compartilha suas experiências no canal do YouTube e nas redes sociais, mostrando destinos, bastidores, aprendizados e histórias de quem vive a pesca de perto. Também acompanha e valoriza a evolução da pesca feminina, unindo turismo, paixão pela natureza e experiências que vão muito além dos peixes.